Une nuit d’SDF

Recapitulando : eu saí da Missa a Notre-Dame de Lourdes, almocei rapidinho e corri pra gare. O Pierre e o Nicolas (um amigo dele, de Nancy) me acompanharam. Problema número 1 : eu perdera a passagem, do trecho Nancy-Metz-Paris. Enã, não havia nada que eles pudessem fazer, na SNCF. Tive que recomprar o bilhete de última hora, pelos olhos da cara – sendo que um dos trens só tinha vaga na primeira classe ! Bem, fazer o quê…

Ia ser minha “journée voyage” – Metz foi legal, tive uma hora de pausa, esperando a correspondência, saí um pouquinho da gare, com um mapa, andei alguns metros (pena que era pouco tempo, não dava pra ir à catedral, que, dizem, é magnífica!). O segundo trem chegou na hora, partiu na hora, nenhum problema. Meu medo era que ele atrasasse, ou algo assim – em Paris, eu tinha 30 minutos para mudar da Gare de l’Est à Gare de Lyon. Descendo do trem, “é dada a largada !”, a corrida começava, metrô 4, até (…), depois linha 1, (…) até a garde de Lyon, onde eu tinha que encontrar primeiro a parte “grandes lignes” (a gare de Lyon é gigantesca !), encontrar o trem… Enfim, cheguei no trem quase dez minutos adiantado. Vitória !

O trem partiu. Estávamos quase chegando em Saint-Étienne, última conexão antes do Puy-en-Velay, quando… vinteminutos antes da horade chegada, o trem deu um prego. “E agora, perdi minha conexão !” Quando finalmente o trem chegou e nós nos aproximávamos da gare, o conducteur do trem anunciava que os passageiros com conexão para o Puy, partida imediata na mesma plataforma. Quando chegamos… cadê o trem ? Partira. Próximo trem às 21h e pouco. Mal saí de gare nesse meio-termo, só pela praça em frente, procurando menos barulho para falar com o Sébastien no telefone. Comprei até uma revista de palavras cruzadas, pra fazer enquanto esperava. O tempo se arrastava… parecia que não ia ter fim. Quando enfim, a voz da moça da SNCF anuncia que o trem para o Puy se preparava para entrar na plataforma. Comecei a guardar minhas coisas e saí. Por onde era mesmo que passava ? Ah, sim, encontrei. Quando eu desci, pude ver o trem chegando do outro lado, só atravessar a linha do trem. Pelo subsolo.

Quando eu subi, só vi o trem fazendo a curva, tendo acabado de partir…

Sim, era o trem do Puy, me ocnfirmou o guarda. E era o último da noite, agora só às 5h50 da manhã. E a gare fechava às 23h. Aí eu paniquei. Não sabia mais o que fazer, não conhecia nada nem ninguém em Saint-Étienne, nem mesmo sabia onde era que eu estava ! Liguei pro pessoal que já estava na capital da Haute-Loire, eles nãosabiam muito bem o que fazer, sugeriram que eu procurasse um presbitério, sei lá, um padre que pudesse me acolher… bom, pelo menos já me era melhor que dormir na praça da estação (porque dentro, eu não poderia). Por sorte, havia um mapa da cidade na gare, com uma péssima qualidade, mas dava pra seguir mais ou menos bem. Tirei uma foto e fui tentando seguir até alguma indicação de igreja.

No desespero, eu mandei atpe umas mensagens (em caixa alta) pro Pierre e pro Sèb ; Pierre não conhecia ninguém, nem nada. Sèb, sem resposta. Então, começou a procura. Primeiro, cheguei a uma igreja magnífica, Sainte-Marie. Perguntei a um habitante (que estava entrando em casa, logo em frente à igreja), ele disse que o padre morava atrás da igreja. Bom, o que havia atrás era um jardim, onde eu não ousei entrar (embora tivesse uma “janela” aberta na grade…), e uma porta que me pareceu convidativa. Bati, e não se me abriu. Mais para a direita era um parque de uma escola – o padre morava mesmo, ali ?

Tentei ligar pro Père Michel-Marie, ver se ele tinha algum contato em St.-Étinne. Nada. E eu me comunicando com o Pierrot. No meio dessa provação imensa, ele disse que não iria pra cama enquanto eu não soubesse onde iria dormir. Eu não soube nem o que responder, de tanto que isso me tocou. Era disso que eu precisava : um irmão. Um verdadeiro irmão, cujo papel seria decisivo nessa noite, como eu vou relatar a seguir.

Passei à tentativa dois. Nativité. Céus, era um lugar tão escondido, teria sido mais fácil seguir o cemitério, mas eu não ! Sabe-se lá… mas enfim, cheguei ao lugar marcado e… cadê a igreja ? Pulei uma grade, subi umas escadas e acho que era a igreja, lá,, pelo menos tinha um vritral. Um pouco mais afastado, um predio devi ser o presbitério. Mais uma vez, bati e não se me abriu – ah Jesus, tu que nos tinhas dito “batei, e abrir-se-vos-à”, com essa belíssima mesóclise bipronominal, onde estás ? Cada vez mais com medo, pocurei nas casas ao redor, para ver se não havia alguma caixa de correio com “Père Alguma-Coisa, curé”, mas nada. Pedia para o Pierre procurar na internet o endereço. Ele me indicou uma rua que eu não encontrava. “A gente tá falando do mesmo lugar ?

Não. Pronto, acabou. A bateria da máquina acabou. C’est fini, agora é voltar pra gare e testar se o saco de dormir é bom mesmo.

Noite de sem-teto (já diz o título).

Não. Deus me deu de presente um anjo. O Pierre pediu que eu ligasse para ele. Ele me serviu de GPS até o presbitério que ele me havia indicado – que, d’ailleurs,  era longe pra dedéu. A cada rua ele foi falando bem direitinho, guiando o pobre estrangeiro[-burro]-perdido, ele me acalmou tanto… Era o presbitério da catedral. Sorte que era bem indicada, mas também não tinha campainha. Bati e – supresa ! – nada. Até desliguei para telefonar, mas o número devia ser o da recepção, não o do padre mesmo. Já passava de meia-noite.

Liguei de novo pro Pierre. Pois bem, ele foi procurar um hotel, era mais fácil. Nisso, a ligação caiu, porque eu não tinha mais créditos, recarreguei num pulo, ele estava à beira de pegar o telefone de casa e me ligar (ele já tinha esgotado o plano do celular). Ele me guiou a um hotel não muito longe da praça da catedral. Ele teve um pouquinho de medo, mas não havia 36 soluções, como dizem os franceses. Toquei a campainha do hotel ; após uma curta espera, atenderam. Não era grande coisa, um primeiro andar de um prédio residencial, e o preço não era bem o melhordo mundo. Mas a moça foi super gentil, ligou até para um táxi, que viria me pegar às 5h15 da manhã. Parfait. Coloquei o celular pra carregar (a barra de bateria já piscava) e fui tomar banho. Depois, liguei pro Pierrot. Pode dormir em paz, mon cher, que eu já estou na cama. Ele, ele tava com o computador com mil páginas abertas, Google maps, sites de hoteis, uma parafernalha indescritível só pra me ajudar. Fui dormir pouco depois da uma da manhã. Mas foi sobre uma cama.

E Pierrino, se você chegar a ler isso (sim, ele disse que leu o post anterior) (e eu chamei ele de couillon, ah la honte !) (mas fazer o quê, se ele é mesmo ?), je te dis simplement que je t’aime, mon frère, je t’aime de toutes mes forces, et jusqu’au bout de moi-même ; c’est pas que pour ça, pour m’avoir tant aidé et réconforté, cette nuit-là, mais pour ce que tu es, pour toi-même, et je suis ravis que tu sois avec nous, que tu sois notre frère, notre cadet, notre benjamin… mon benjamin… E aproveite do privilégio, que nãoé todo dia que eu faço uma declaração de amor assim em público, viu ? 😉 Si seulement j’avais comment t’en remercier…

Bem dá pra imaginar que eu não tenho fotos, né ? [Ah, tô morrendo de desesperado que não tneho onde dormir, peraí que eu vou tirar uma foto da minha cara, depois das igrejas que eu NÃO consegui entrar, das ruas escuras…]. Como eu cheguei ao Puy, eu conto no próximo post. À plus !

Anúncios