JMJ (Parte 2)

No dia seguinte, acordamos com alguns avisos de que gente perdida deveria ir ao alguma coisa número três e avisos de que a tempestade (alguém tem alguma tradução melhor para “orage”?) tinha derrubado algumas capelas, e, por respeito a Jesus Sacramentado, removeram os sacrários, então não haveria comunhão para todo mundo, durante a Missa. Domage…

O café da manhã tirado da sacola de piquenique foi bom. Uma comunidade religiosa cantava as laudes. Esperamos um pouco, e o papa não demorou muito a chegar. Ele ia passar. Sim, haviam desocupado as vias. Só que…

Bem, ele só passou no corredor central, acho. Perto da gente, não. Que pena: nem vi o papa de perto… ah!, mas não tem problema. Meu objetivo não era ver o papa, mas fincar raízes em Cristo, firmar-me na fé. Mas claro que se desse pra ver o papa de perto, eu não iria reclamar…

A Missa começou. Pena que eu havia deixado o livro do peregrino, nem deu pra acompanhar direito. Mas como era o mesmo rito latino, só que em latim, deu pra acompanhar. As músicas – Céus, o que era aquilo! Muito lindo, levava a gente até o céu mesmo sem entender tudo! Dava pra entender algumas coisas, mas mais porque eu já conheço a Missa.

A primeira leitura – fiquei tão contente, foi em português! E português do Brasil – acho que o cara devia ser paulista. Fiquei até emocionado! Depois, o salmo em espanhol. Segunda leitura em francês. Aclamação belíssima, evangelho em espanhol, não tenho mais tanta certeza. E a homilia, também não lembro bem, acho que foi em espanhol. Sei que o que eu prestei atenção, eu entendi.O credo, eu rezei em português, embora tenha sido cantado em latim. Preces em várias línguas – espanhol, francês, inglês, alemão, polonês, chinês (eu acho, teve língua que eu não tenho nem ideia!).

Oração eucarística, Jesus todo Glorioso nas mãos do Seu vigário; Corpus Christi. Pater.

Comunhão. Espiritual.

Ao fim, uma mensagem do papa aos jovens, cada um em sua língua. Depois, ele anunciou que a próxima JMJ vai ser… no RIO!!!! Mas que festa, do brasileiros! Muitas bandeiras balnçamdo, muito verde-e-amarelo, muita alegria, cornetas, gritos, emoção, comoção, palmas, torcida organizada! 2013. Uma equipe de jovens brasileiros foi receber a cruz dos jovens. Sim, que alegria!

Nisso, só deu pra ver o papa um pouquinho, de longe, nem sei se era ele mesmo, prefiro pensar que sim. Enfim, no fim das contas, encontrei uma boa galera do Shalom – eu vi o Vitinho! Que saudades, ainda não o havia visto com o tau de discípulo! Ele me pareceu realmente feliz. Peguei o e-mail dele, coisas assim; muito contente, ele disse que ia me passar seu endereço por e-mail, até já escrevi um postal!

Depois disso, me perdi do meu grupo. Esperei um pouco, tentei ir até o lugar das pessoas perdidas, mas nem encontrei esse lugar! Resolvi esperar mais um pouco, e andei, andei, andei… saí do aeródromo, andei andei andei, onde era que eles estavam? Fui seguindo a multidão até o metrô – não tinha mais o ônibus que nos levava para lá… além do que, aquele estação onde descêramos não estaria funcionando nesse dia.

No meio do caminho, encontrei o povo! Deus seja louvado! Andamos, andamos, andamos, tomamos um pouco de banho, na água que alguns moradores jogavam nos peregrinos, eu sem banho desde quinta, a estação de metrô entupida de gente. Pensamos em pegar um táxi, tudo lotado. Paramos numa calçada, comemos alguma coisa, esperamos – era bem em frente a um condomínio com piscina. Inveja.

Aonde vamos, agora? Fomos à próxima estação. Era mais adiante; no caminho, vimos um táxi estacionado na frente de uma lanchonete, mas o motorista não queria dirigir naquela multidão. Descemos, metrô lotado! Pegamos no sentido inverso, chegamos na estação entupida, muita gente, mas veio um metrô vago. Paramos numa estação e pegamos um táxi. Chegamos na nossa paróquia.

Arranjei um lugar num quarto, fui pegar minha mala – ainda bem que os espanhóis entendem português, senão… enfim,

Tomei banho.

Descansei um bocadinho, dei uma organizada nas minhas coisas, enchi o colchão, vasculhei minhas coisas pra saber o que tinha vindo. O Youcat em português é muito massa – mas é em português de Portugal.

Pouco depois de 17h, fomos para a festa brasileira. Teve banda Dominus, na hora da banda Cirus, eu voltei para o alojamento – alguns brasileiros estavam vendendo chinelos da JMJ Shalom,e haviam acabado, fomos buscar mais. Eu e mais um cujo nome eu esqueci – brasileiro, claro. OK, erramos de metrô, ninguém viu, voltamos e acertamos e voltamos. Quando chegamos na praça de volta,

A Lívia!

Eu vi a Lívia, que não via desde que ela ingressara na Comunidade de Vida. Tudo bem que isso fora em abril, ainda, mas a surpresa foi tão grande quanto ver alguém que não via há anos. Era bem na hora do show do Missionário Shalom… mas fomos jantar, apesar disso. Um dia deve ter show deles em Toulon ou Avignon, então… fomos para a estación e comemos num restaurante de alguns chineses, lá. A maior alegria era poder comer arroz… *_* E não só ela: depois, o grupo com o qual eu estava foi comer lá, e eu recomendei porque eles queriam URGENTE comer arroz!

Disseram que a chuva com vento derrubara uma parte do palco. Pararam o show, mas como só brasileiro é brasileiro, desceram e começaram a fazer uma espécie de “lual”! Mas não ficamos para ver como ia continuar. Do jantar, todo mundo foi para “casa”.

Todo mundo entre aspas, também. Eu e mais duas italianas passamos na paróquia, pegar uma mala, depois fomos à casa onde elas estavam dormindo, a convite de uma mulher.

Essa senhora, cujo nome eu esqueci, mas era Maria alguma coisa, casada com um senhor chamado Jesus, era de algum país americano, que eu não lembro bem, e muito simpática. Conversamos um pouco, e ela nos ofereceu uma sangría. Todo mundo achou ótimo; eu, que nunca apreciei álcool, fiquei meio sem saber o que fazer… não era ruim, fato, mas era vinho com frutas, de qualquer forma… bem, quando me perguntaram eu disse que eu não gostava muito de vinho, mas aquilo era bom. Ah, e eu ganhei uma faca de bolo, também! As moças iam dormis lá; eu voltei para a paróquia.

No dia seguinte, acordei antes do despertador, com o povo se preparando para ir embora. Iam cedo. Eu também, não podia chegar tarde. Ou eu achava que não. Despedi-me dos italianos, iam colocando minha mala por engano no ônibus que ia para Itália!, colocaram meu café da manhã no ônibus (ainda bem que eu já tinha comido alguma coisa) (mas tinha três chocolates, ainda T.T). Peguei o metrô.

Ainda lembro que eu peguei o metrô na estação de Argüelles, fui até o Mar de Cristal, onde peguei outro para a parada do aeroporto Madrid Barajas terminais 1, 2 e 3. O meu era no terminal 1 – o mais difícil foi encontrar o terminal 1, já que eu não sabia que seta para baixo, na Europa, que dizer em frente…

Cheguei no balcão da Ryanair, pedi para pagar para enviar a mala, ela disse para primeiro passar no balcão do passaporte, passei, voltei, ela perguntou o peso da mala, fui num dos chek-ins vazios, pesei, 9,90 kg, voltei, paguei 40 €. Quiseram falar inglês, nisso tudo, mas com sotaque espanhol… sinto muito, mas não dá mesmo. Só pedi para falarem mais devagar. Deu certo.

No embarque, fui logo para o portão. Pouco tempo depois, começou a se formar uma fila. Tomei lugar. À minha frente, dois homens conversavam em francês, um deles tendo em mãos o Youcat francês. Depoisde muito tempo parado, puxei conversa – começando pelo Youcat. Conversamos um pouco, eles sabiam um pouquinho de português, bem que eu achei o sobrenome que eu vira no cartão bem português! Depois de algum tempo, a fila andando, eles me falando que conheciam mais ou menos o Shalom, os espetáculos teatrais, eles conheciam o Wilde Fábio! E sempre me perguntando coisas sobre Portugal, se eu conhecia a comunidade lá… e eu sem entender, quando vi, aquela fila era para Porto! A minha era no mesmo portão, mas uns quarenta minutos depois.

Bem, esperei. Quando por cima do portão apareceu “Paris Beauvais”, aí sim eu me mudei. À minha frente, um grupo de francesas falava. Tentei entender, mas era difícil, elas falavam rápido.

O avião mudara de portão. A moça avisou no alto-falante do portão (porque o do aeroporto não avisa esse tipo de coisa) e todo mundo correu! Afinal, quem não quer pegar um bom lugar no avião? Na minha frente, outro grupo de francesas! Se bem que eu acho que maior parte do avião era francesa… de qualquer forma, quando elas me ofereceram um brioche, eu aceitei. Ficamos falando eu, uma das francesas, e umas argentinas que estavam atrás de mim.

Entramos no avião 11h45, se bem me lembro. O voo estava marcado para 10h30… ainda bem que eu havia comprado meu bilhete de trem para bem tarde, temendo esse tipo de coisa!

E temendo a imigração… se tivesse, eu talvez não passasse, porque não tinha o titre de séjour. Mesmo assim, consegui dormir no avião. Acordei com a dor nos ouvidos do pouso.

O aeroporto de Beauvais é tão pequeno que não deve ter nem imigração! Sério, é estranho… comi um sanduíche no aeroporto e fui esperar o ônibus. Ônibus da cidade, mesmo, porque eu ia para a gare de Beauvais – não sabia bem onde o ônibus para Paris deixava, então, preferi não arriscar. Esperei impacientemente o trem… começou a chover, corri para o outro lado da rua para me abrigar – o motorista chega. Bem… fazer o quê?

Parei na parada mais próxima da gare, fui na chuva, mesmo, ainda bem que não estava tão forte; cheguei poucos minutos antes do trem. Entrei. O trajeto do trem ocorreu normalmente, cheguei à gare du Nord, m Paris. Eu tinha três quartos de hora para chegar à gare de Lyon. Não sabia nem que RER tomar (lembrava do site que dizia que era RER, mas qual…). Um senhor me ajudou a fazer isso, só que era 6€ e alguma coisa; eu tinha uns 4,50€ em espécie, ia pagar com cartão, mas ele pagou por mim. Bem, ele teve que se contentar com os 4,50, né? Désolé.

Chegando à gare… cadê que se encontra o lugar de pegar os trens? Era difícil, pedia ajuda a uma senhora, e ela me levou até lá – mas precisava do tíquete do RER/metrô, para passar, e cadê que eu encontrava? Tive que entrar junto a um senhor que entrou por uma porta mais larga. Vi no telão minha plataforma, corri para ela, subi pelo lugar errado, desci de novo, subi pelo certo, achei a plataforma, subi no trem um minuto antes de ele sair. Ufa!

Cheguei a Vichy 21h50. Fizera calor, no final de semana, era até meio estranho: quando eu cheguei, o ventilador estava ventilando a sala de jantar! E havia também a sobrinha do M. Piombini, de Marseille, com seu marido. O Xù também estava lá, tudo em paz.

Sim, a Jornada Mundial da Juventude fora excelente, mas não deixa de ser um grande alívio chegar em casa após uma jornada tão cansativa de viagem…

JMJ (Parte 1)

A última questão e a hora. Era a hora exata, a última questão, e quem conseguiria se concentrar?, nem que eu quisesse, o texto passava diante dos meus olhos e o cérebro nada absorvia. Nada de voltar e reconferir, a corrida ia começar, pegar a mala na recepção, junto com a Carol, correr pra estação, comer alguma coisa, não tinha banheiro, digo, tinha, mas era pago; validar o bilhete, não demorou o trem chegou e – corre!, entrar depressa, encontrar o lugar.

A sexta-feira tinha sido corrida. Tirar a barba de manhã, que era pra não ter que viajar assim. Levar a mala e mochila no ônibus – sem esquecer de colocar a nécessaire com escova, pasta, e o resto. Com quem eu ia deixar a mochila? Tanto fazia, depois eu pensava. A aula da manhã transcorreu normal. Almocei com as suíças – mas cheguei atrasado, porque eu fui na mediateca fazer o check-in da volta e imprimir o mapa do metrô até a paróquia. Dificilmente verei a Esther e a Vera de novo… talvez em dezembro, se o der tudo certo pra eu ir com o Ives pra Suíça… À tarde, tínhamos uma improvisação de um programa televisivo, o meu era um jogo de perguntas e respostas sobre a França. Era sorteado, mas eu pedi para sair antes, por causa do teste.

No trem, a moça nos interrompeu. Estava checando os bilhetes de trem. Mostrei o meu. E cadê que eu tinha levado a carte 12-25? (É um cartão de desconto para jovens entre 12 e 25 anos de idade). Tive que pagar a diferença, uns 35€. Ainda bem que o cartão eu não tinha esquecido! Pelo menos ela disse que se eu fosse na gare com o bilhete, a carte e o recibozinho que ela me dera, eu podia ser reembolsado – provavelmente não tudo, mas melhor que nada.

Continuando: o teste, o bendito teste… minha viagem estava marcada para 6h da manhã od dia 19, sexta, mas, somente por causa desse teste, eu tive que adiar para 18h – e era a única possibilidade, e já era uma exceção: como havia muitos estudantes brasileiros que haviam marcado uma viagem antes mesmo de o teste ser anunciado, deixaram que a gente fizesse no dia 19, porque o dia programado era dia 22 pela manhã. Como não havia a mínima chance de chegar segunda de manhã, foi o jeito fazer sexta, mesmo, e chegar sair mais tarde. Ora, uma menina brasileira ia comigo, e, também ela tendo dúvidas sobre o que fazer, mostrei para ela o meu plano e ela quis ir comigo. Sairíamos um pouco mais cedo do teste e partiríamos.

O teste não foi difícil,mas se tivesse um pouquinho mais de tempo… e eu não conseguia fazer a escuta, não conseguia prestar atenção no computador falando… e não conseguia ler o texto… mas terminei bem na hora programada, 17h30.

Não que tenhamos conversado muito no trem, mas conseguimos nos sentar um ao lado do outro. A mãe d’accueil dela lhe havia presenteado com um exemplar de Le Petit Prince, que eu comecei a ler em voz alta. Sim, ler em voz alta em francês é muito melhor, mais emocionante. Paramos um momento. A viagem não foi muito longa – pudera, era o menor trecho!

Chegamos à gare de Lyon. Eu sabia que a gare de Austerlitz era próxima, fomos a pé (não valia nem a pena pagar metrô!). Só pra confirmar, perguntamos para uma moça que passava; para nossa surpresa, ela disse que era um pouco longe e recomendou a gente pegar um ônibus. Como assim? Mas o melhor foi ela se oferecendo para falar inglês com a gente! O.o Uma francesa começando a falar inglês sem nem a gente pedir? Peraí, aqui é a França mesmo? Mas a essa altura do campeonato, inglês é mais fácil de entender.

De teimoso que eu sou, convenci a Carol a ir a pé, mesmo. Eu sabia que era do outro lado da ponte! Atravessamos a ponte e perguntamos para um casal que passava. Pois não é que eles iam exatamente para lá?

No gare, pedimos mais algumas informações, o cara também se ofereceu para falar inglês, mas, enfim, era um balcão de informações. Comemos alguma coisa e entramos no trem. Não to bom. O pessoal que confere os bilhetes passou e logo depois eu dormi.

Acordei só de manhã. Não lembro exatamente o que eu fiz assim que acordei… sei que não demorou muito, chegamos na fronteira, e um pessoal foi checar nossos passaportes. Não sei se era algo oficial ou era do trem, mesmo, se alguém aí souber, pode me dizer. Uns vinte minutos depois, chegamos em Irun.

Irun é uma cidade fronteiriça, no lado espanhol. Como Não havia trem direto para Madrid, àquela hora, comprei uma conexão em Irun. Bem, esperamos uns quarenta minutos na gare (aliás, estación), deu tempo de ir no banheiro lavar pelo menos o rosto (meu último banho havia sido quinta-feira à noite), mas não de tomar café da manhã. Isso foi no trem; meu pedi um café, um suco e um sanduíche básico – mas o café era tão ruim que nem muito açúcar dava jeito! Li o resto do Petit Prince, assisti a um filme espanhol (com legendas, gracias!), fui conversar com a Carol (nesse trem, a gente não tinha conseguido comprar poltronas próximas, ela estava em outro carro)… era engraçado, tinha um cara lendo um jornal em basco, quase na frente dela! Muito estranho, isso (o basco)! Quase do meu lado, do outro lado do coredor da minha poltrona, tinha um casal de russos, ou qualquer outra língua que utilize o alfabeto cirílico; sei que teve uma hora em que eles se abraçaram de lado, e ela começoua pega na virilha dele O.o Depois ele cobriu com o tablet que ele tava lendo, e ela continuou com a mão lá – corri pra poltrona da Carol! Sabe-se lá o que é que eles iam fazer!

Quando chegamos a Madrid… bem, éramos nada. Ainda bem que ela falava espanhol, senão teria sido meio difícil – se bem que eu estava já mais localizado d que ela. Ele precisava ligar para o seu irmão. Tinha que ir para uma parada de metrô não muito depois da minha, na mesma linha. Fomos. Conseguimos comprar os tíquetes, sem problema; linha 1, algumas paradas, Bilbao. Nos despedimos, desci. Linha 4, até o fim: Argüelles. Peguei o mapa que eu tivera o cuidado de imprimir. Não era difícil, mas perguntei só pra confirmar o nome da rua. Segui o caminho indicado, cheguei numa igreja, paróquia do Santíssimo Salvador.

O que aconteceu eu não posso chamar de sorte. Nunquinha! Providência de Deus agindo 100%! Acontece que qase todo mundo já tinha saído. Tinham ido a Cuatro Vientos desdede manhã. Chego ao portão – mesmo aberto, toquei a campainha. Um senhor veio lá de dentro, enquanto isso, na frente da casa (posso chamar de jardim sem dar a entender grama e flores?), alguns jovens descansavam e eu vejo a Geórgia.

Inacreditável, isso: eu havia estudado com ela no 2º semestre da Casa de Cultura; ela era do Shalom, já tinha ido em missão para a França, depois foi fazer um curso de francês na Cultura (quando a conheci), e tinha acabado de sair de uma missão em Israel e estava na Itália, por equanto. Pois bem, pense na surpresa! Que mundo pequeno!

E ela me perguntando como eu tinha chegado,onde estavam minha mochila, meu crachá, minhas coisas, e eu queria exatamente saber ONDE era que eu pegava, e, quando vejo, o senor, lá de dentro, traz a minha mochila! Bendito seja Deus!

A casaparoquial estava fechada, mas eles tiveram a amabilidade de abrí-la para que eu colocasse as minhas coisas lá dentro. Tirei o que eu ia precisar, da mala, tirei o que não ia precisar, da mochila, guardei os tíquetes de refeição e o de passagem na pochete e fomos comer.

No pequeno restaurante, eu não tinha nem ideia do que pedir, pedi uma sopa de tomate (fria, porque era verão) e salsicha com fritas. Disseram que, pelo fim da semana, não aguentavam mais comer coisas desse gênero.  Geórgia, Maria (outra brasileira que vive na Itália, da CV) e eu. E a sopa não era a última Coca-Cola gelada do deserto… na TV, passavam algumas imagens do aeródromo de Cuatro Vientos, e a multidão, o sol, a poeira subindo, os bombeiros jogando água para refrescar… “Tomara que minha mãe não esteja vendo isso!”. Pagamos com meus tíquetes de refeição – ninguém nem olhava as datas, e eu tinha pela semana inteira, ainda! Sério, saí “pagando” refeição a torto e a direito, nesse fim de semana!

Tinha ar-condicionado, no restaurante. Pois bem, assim que abrimos a porta… aquele bafo quente invadiu o lugar, e cadê a coragem de sair? Mas era o jeito… fomos a um mercadinho chinês, comprar cabos de vassoura para as bandeiras (lógico que eu levara a minha!). Mas não tinha máscara de proteção, para proteger da poeira, nem guarda-chuva decente. Pas grave. Voltamos ao jardim da casa paroquial, onde cochilavam, ainda. Quase todos italianos. Ora, eu pedira para ficar com o Shalom da Itália (na verdade, fora um teste, eu não esperava que fosse dar tão certo; mais pro fim de junho, eu consegui pedir a “relação de confiança” com o Shalom do Brasil, mas acho que já estava muito em cima) (além do mais, o Shalom da Itália estava numa paróquia até bem localizada, enquanto o pessoal do Brasil foi pra Guadalajara! Uma hora de trem de Madri!). Ainda bem que havia outros brasileiros, mas todos eles falavam italiano (a Geórgia, mais ou menos, mas ela falava tão sem inibição que eu jurava que ela falava direitinho!). De vez em quando, eu tinha que parar e perguntar o que as coisas significavam.

Antes de ir, passamos ainda num supermercado – aproveitei que eu havia esquecido a toalha e comprei uma, bem como uma bebida gelada (uma das poucas do mercantil) e um Kinder Joy (era muito barato!)

Bem, fomos a Cuatro Vientos. Partimos de metrô, trocamos de estação, fomos até a parada que devíamos, subimos, pegamos um ônibus que dava para perto do aeródromo, e começamos a andar. E pense num andar! Bem, no meio do caminho, alguns brasileiros disseram que por aquele lado não se entrava mais. Bem… ficamos na dúvida, mas a teimosia venceu – porque italiano, além de falar cantando, comer macarrão e falar com as mãos, É teimoso! Pois bem, fomos adiante.Outras pessoas disseram a mesma coisa. Andamos e andamos e andamos e andamos e nunca ia chegar, e eu ia perto dos brasileiros para poder falar português e andamos e andamos e chegamos e não podia mesmo entrar, tentaram falar com os voluntários que estavam à grade, não podia, não sei nem por quê, parece que muita gente que não tava inscrita tinha ido já sexta-feira, dormir lá, enquanto não tinha controle de quem entrava, e tinha muito mais gente que o esperado, lá. Bem, ficamos de fora. Havia ainda um telão, lá fora – foi assim que vimos o que se passava. Acomodamo-nos num lugar nada mal – c’était pas le Bizance, mas dava pra ver.

Fiquei tão contente que o espanhol falado nos alto-falantes era bastante lento! Porque os espanhóis falam DESESPERADAMENTE rápido! Bem, dava pra entender – e o que não dava, tinha a tradução em inglês, depois. Escutar foi até fácil, mas falar espanhol… é uma musculação para a língua, certeza! Dói. E é uma língua feia, também. Está próximo do fim da minha lista de prioridades de língua a aprender, perto da língua dos inuits, do pirarrã e do idioma extinto de Betelgeuse III (porque eu não tenho línguas suficientes para pronunciá-lo). Até o catalão goza de mais respeito que o espanhol, no meu conceito, pelo menos é uma cópia um pouco mais bem-feita do português.

Pois bem, o papa chegou. É óbvio que a única forma de vê-lo era no telão. A primeira coisa que ele fez foram responder às perguntas de cinco jovens adultos – [escrever as nacionalidades e as línguas]. Depois de algumas palavras do Santo Padre, começou a chover. Um vento muito forte, uma chuva vinda do nada – mas já era de se esperar, havia já uns vinte minutos que havia começado a surgir relâmpagos muito fortes, ao longe! Mas quem iria desistir por causa de uma chuvinha?! Eu e o Marcelo, outro brasileiro, nos abrigamos debaixo de um guarda-chuva, e eu coloquei meu colchão de um lado, já que ele era de borracha (não, mãe, eu não coloquei o lado de dormir para fora), começamos a rezar para que aquela chuva não interrompesse aquele evento, aquele momento. Rezamos um mistério. A chuva deu uma diminuída, os apresentadores falaram que o Bento tinha pedido orações – mais um mistério. Pouco depois, a chuva parou. Engraçado é que tinha uns brasileiros do nosso lado (não do nosso grupo) que ficaram cantando e dançando na chuva. Sim, sim, e não éramos todos loucos, por acaso, de estar ali? Não era também eu um dos piores loucos, da minha arriscada empreitada?

As coisas se acalmaram. Um tempo em nada. Até bastante tempo. Alguns se prontificaram a ir pegar a comida. Pois foram bem na hora da adoração. Quando eu vi o ostensório imenso, aquela custódia magnífica, e o vigário de Sua Majestade que O colocava em Seu Trono de Glória… tinha como não pensar na beleza do Rei dos reis? Tinha como não pensar no Senhor do universo, em toda a Sua Glória, observando amorosamente todo a cada um de seus filhos queridos, os jovens, as virgens prudentes do Evangelho? No Esposo que chega na liteira de Salomão e convida sua amada para ir com Ele? No Amor com que Deus ama o mundo? E, apesar disso, ou talvez mesmo por isso, no cuidado pessoal que Ele tem para com todos? Sim, Ele que me ama apesar de mim mesmo, que não me tira nada, mas que me dá tudo… queria muito tentar descrever a adoração, mas me é tão impossível quanto tentar descrever o próprio Deus: conheço-o, mas não é possível descrevê-lo, dado que Ele me ultrapassa em todos os sentidos, em toda a minha capacidade de dizer qualquer palavra – e isso é escrevendo, porque falando…  nem pro começo!

Finda a adoração, chegaram os jantares. O Bento disse ainda algumas palavras. E até amanhã! Bem, antes de sair, um pedido: desimpedir as vias, que estavam cheias de gente, para que o papa pudesse passar. OK.

Como bastante gente ia sair – principalmente os madrilenhos – tentamos entrar. Pelo portão que a gente tinha entrado antes, não podia. Tentaram se aproveitar de brechas no portão. Os guardas nos impediram de prosseguir, mas ainda insistiam. Muita má-fé, pro me gosto… depois de um pouquinho de polêmica, fizemos uma votação: iríamos arrodear o aeródromo para tentar entrar ou ficaríamos lá mesmo? Ganhou o tentar entrar. Andamos todo o caminho que percorrêramos à tarde, viramos à esquerda e chegamos ao portão 2 e – nous voilá!

No meu crachá, assim como na maior parte do nosso grupo, estava escrito E5, mas quase toda a galera do Shalom estava no F6. Bem, fomos procurar um lugar no F6, pra dormir. Foi difícil, mas deu. Antes de dormir, banheiro, escovar os dentes, e pegar as sacolas de piquenique. Ainda bem que tinha água, dentro! Depois de algum tempo, adormeci. Acordei várias vezes durante a noite, de desconforto – peguei minha mochila e coloquei na cabeça – de frio – peguei a toalha que eu tinha comprado e me cobri com ela – etc. Não acordei com formigas – gracias!

[continua…]